A lagarta, esfumaçada, me perguntou ‘Quem és tu?’ disse ela com veemência. Eu poderia respondê-la começando por meu nome, adicionando minha idade, talvez o local do meu nascimento, mas de alguma forma ela não parece estar interessada na minha carteira de identidade.
‘Quem és tu?’ ressoa novamente da fumaça. Penso em lhe contar sobre meu passado, coisas que vivi, pessoas que conheci, mas sua figura emana impaciência.
‘Quem és tu?’ me lançando um olhar desafiador. Ensaio minhas palavras. Devo lhe falar sobre meu trabalho? Minha educação acadêmica? Minhas conquistas? Ela me ignora, ela parece saber tudo sobre isso e então me pergunta ‘Quem és tu?’. Tento lhe dizer o que penso, o que sinto, mas sua indiferença me deixa atordoada. Solitária, perdida em uma coberta de uma fumaça densa. ‘Quem és tu?’ ecoa em meus ouvidos e minha alma treme. Penso em meus sonhos, meus desejos, minhas esperanças…
Como as badaladas de um relógio a lagarda não cansa de perguntar ‘Quem és tu?’.
Não tenho passado, não tenho futuro, não tenho talento, não tenho riquezas, não tenho beleza, não tenho certezas… E com um abismo na garganta respondo a essa charada ‘Não sou alguém’.
A cortina de fumaça se dissipa com um assobro e a lagarta baixando a piteira de sua boca consente ‘Agora você ve’.
Quem és tu?
December 4, 2011 by Glaucia Almeida
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